Sem cemitério público, 57 toneladas de animais mortos foram descartados em aterro do DF

Sem cemitério público, 57 toneladas de animais mortos foram descartados em aterro do DF


Cerca de 57 toneladas de animais mortos foram parar no aterro sanitário do Distrito Federal entre janeiro e novembro deste ano, segundo o Serviço de Limpeza Urbano (SLU).

O descarte do corpo de animais mortos no lixo não é o procedimento correto, mas o número evidencia a dimensão do problema da destinação de corpos de animais na capital federal, onde não há cemitério público e as opções disponíveis se concentram em serviços privados.

Atualmente, o SLU é responsável pelo recolhimento de animais de pequeno porte encontrados mortos em vias públicas. Após a coleta, os corpos são encaminhados ao Aterro Sanitário de Brasília, localizado em Samambaia.

No caso de animais de grande porte, como cavalos, o cidadão deve acionar a central de atendimento pelo telefone 162 e informar a localização exata para que a remoção seja feita.

Animais mortos em casa

Apesar da atuação do SLU em áreas públicas, a perda de um animal de estimação ainda coloca muitos tutores diante de dúvidas práticas, especialmente quando a morte ocorre dentro de casa. O que fazer com o corpo do pet? Para onde encaminhá-lo?

No Distrito Federal (DF), as respostas são limitadas. Ainda que mais da metade dos lares da capital federal tenham ao menos um pet, não há política pública bem definida sobre a destinação dos animais mortos. Não existe cemitério público e apenas dois crematórios particulares funcionam na capital no momento.


  • No Distrito Federal, 55% dos lares têm ao menos um pet. São 837 mil animais registrados em 679,7 mil lares;
  • Cães são os mais presentes, seguidos por gatos, aves e outros animais;
  • Os dados são Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (Pdad-A) do Instituto de Pesquisa do DF (IPE-DF).

Apesar da presença significativa de animais nos lares do DF, o suporte público para destinação adequada dos corpos é quase inexistente.

A advogada e protetora animal Ana Paula Vasconcelos explicou ao Metrópoles que, em Brasília, não há nenhum serviço público que ofereça esse tipo de encaminhamento. Quando a morte ocorre em clínicas veterinárias, geralmente as próprias unidades fazem o encaminhamento dos corpos.

“Mas se o animal morre em casa, por exemplo, a pessoa fica com um problema seríssimo porque não tem destinação pública, a destinação básica acaba sendo muito cara e você enterrar um animal por conta própria tem uma punição administrativa”, explicou.

Em nota, a assessoria de comunicação do Governo do Distrito Federal (GDF) informou que não há discussão técnica sobre a criação de um cemitério público para animais na capital do país. “A política de proteção animal está em constante desenvolvimento e, até o momento, essa demanda específica não foi objeto de estudo, considerando que outras ações prioritárias estão em fase de implementação”, afirmou o GDF em nota.

Diante da ausência de um serviço público para a destinação dos corpos de animais no Distrito Federal, a orientação técnica acaba, muitas vezes, ficando a cargo das clínicas veterinárias.

Destinação de corpos de animais mortos

A médica veterinária Karolina Vitorino ressalta que a destinação correta do corpo dos animais deve, sempre que possível, ser feita por meio de crematórios e cemitérios licenciados. No entanto, no Distrito Federal, esse processo pode ser mais complexo, já que os cemitérios para animais ficam no Entorno.

Segundo ela, quando o responsável pelo animal não opta nem pela cremação e nem pelo enterro em cemitérios licenciados, a alternativa é o recolhimento por empresas de resíduos biológicos. Karolina explica que toda clínica veterinária é obrigada a manter contrato com empresas responsáveis por esse serviço.

“Quando o animal vem a óbito é responsabilidade do médico veterinário confirmar o óbito, emitir o Atestado de Óbito e explicar para o responsável as possibilidades de destinação. Quando o responsável deseja que seja feito o descarte sanitário do corpo, o veterinário deve solicitar que a empresa de destinação de resíduos biológicos contratada pela clínica venha recolher o corpo e fazer a destinação sanitária, que normalmente é a incineração coletiva”, disse.

Riscos ao manusear animais mortos

Karolina alerta que várias espécies têm potencial de causar zoonoses – doenças que podem ser transmitidas dos animais para os seres humanos – como a raiva. Por isso, é fundamental o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) sempre que houver contato com um corpo.

Para famílias que têm mais de um animal, Karolina orienta que, nos casos em que a morte ocorre em decorrência de uma doença infectocontagiosa, o ideal é levar os outros pets para consulta e exames o quanto antes, preferencialmente antes mesmo de apresentarem sinais clínicos.

Outro fator importante é o estresse que o desaparecimento repentino do companheiro pode causar em outros possíveis animais que vivam na mesma casa. Para evitar isso, a veterinária recomenda sempre fazer o acompanhamento do bem-estar do animal que ficou. Além de monitorar a alimentação, ingestão de água e o peso para entender como o animal lida com a quebra da relação.

Há ainda a opção de doação do corpo para estudos e realização de necropsia, sempre com a autorização do responsável. Quando o corpo é encaminhado para estudos, o responsável não precisa arcar com custos, já que o objetivo é a produção de conhecimento científico para auxiliar outros animais.

“Nunca é recomendado descarte irregular, como jogar em caçamba de lixo ou enterrar no jardim de casa, visto que atitudes como essa geram risco à saúde pública”, afirmou a veterinária.

Enterrar no quintal é crime ambiental

Embora o artigo 54 da Lei 9.605/98 trate do crime ambiental relacionado à poluição de qualquer natureza — quando esta resulta ou pode resultar em danos à saúde humana, mortandade de animais ou destruição significativa da flora —, a legislação não menciona especificamente o enterro de animais.

“A lei fala que é considerado crime causar qualquer poluição de qualquer natureza em níveis que resultem ou possam riscar danos à saúde humana ou que provoquem a mortandade de animais. Então, há uma interpretação que o enterro de restos mortais de animais causa essa poluição. É uma interpretação, é uma construção jurídica”, explicou a advogada Ana Paula Vasconcelos.

A legislação prevê penas de 1 a 4 anos de reclusão e multa, prevendo agravantes para situações mais graves (como tornar áreas inabitáveis ou afetar o abastecimento de água) e detenção para o crime culposo, além de punir quem não adota medidas de precaução em risco ambiental grave.

No caso de protetores e tutores de animais, a situação se torna ainda mais complexa por envolver dificuldades financeiras e logísticas. Segundo a advogada, a falta de destinação pública faz com que muitos acabem incorrendo em ilegalidade.

Apesar do cenário, Ana Paula lembra que o artigo 17 da Lei nº 2.095, de 1998, compromete o GDF a destinar uma área para a construção de um cemitério de animais de estimação, cujo funcionamento seria regulamentado posteriormente. No entanto, o projeto nunca avançou.

No caso do licenciamento para o funcionamento tanto de crematório quanto de cemitério animal, a responsabilidade fica a cargo do Instituto Brasília Ambiental (Ibram). Segundo o instituto, as licenças ambientais são diferentes e específicas.

“No que se refere a crematórios, o instrumento é Licença Ambiental Simplificada (LAS). Com relação aos cemitérios de animais, o processo de licenciamento é o padrão. O órgão ambiental informa ainda que não há, em seus registros, até hoje, a emissão de nenhuma licença para cemitérios de animais”, diz o instituto.

Como funciona a cremação no DF

O crematório Paraíso Animal, localizado no Núcleo Rural Lago Oeste, foi o 1º crematório para animais no Distrito Federal e funciona desde 2012.

O administrado Rafael Lopes conta que, em média, são realizadas cerca de 200 cremações por mês. De janeiro a dezembro, o crematório já contabilizou aproximadamente 2.100 procedimentos.

De acordo com o administrador, a procura pelo serviço é constante e vem crescendo. “É uma opção prática, digna e ambientalmente correta para a despedida dos animais”, conclui.

A cremação pode ser presenciada e acompanhada pelos tutores em todas as etapas do processo. Para isso, o espaço conta com uma capela ecumênica, onde os tutores podem se despedir do animal, além de uma sala de espera destinada ao período da cremação.

O valor do serviço varia conforme o porte do animal.

Veja: 

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A temperatura do forno chega a 1.200 °C, o que elimina qualquer tipo de patógeno ou bactéria. “Em altas temperaturas, todo o líquido evapora, os pelos e os órgãos são queimados, e o que permanece são os ossos, cristalizados”, explica Rafael.

“Por isso, o tutor pode guardar as cinzas em casa por tempo indeterminado ou espalhá-las em locais como o mar, o quintal ou um gramado”, afirma.

Administrador do Crematório Paraíso Animal, Rafael Lopes



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