conta de zelador no DF movimentou R$ 600 mil em um mês

conta de zelador no DF movimentou R$ 600 mil em um mês


A conta bancária de um zelador desempregado que mora no Gama (DF) foi utilizada para movimentar dinheiro de empresas pertencentes à Lucineide dos Santos de Oliveira, sócia da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) – uma das instituições investigadas na farra do INSS.

De acordo com documento obtido pelo Metrópoles, R$ 610 mil circularam pela conta do brasiliense em apenas um mês de 2024. Desse valor total, R$ 302,4 mil se referem a créditos e R$ 307,9 mil, a débitos. A informação consta em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviado à CPMI do INSS.

Parte do valor foi enviado ao zelador a vista pelas empresas Solution Serviços de Locação e a Impacto Serviços de Apoio, ambas pertencentes a Lucineide. Um bombeiro militar do DF também teria feito um Pix de R$ 70 mil para a conta, assim como um outro servidor público, que mandou R$ 38 mil em duas parcelas.

Uma terceira transferência feita por uma pessoa identificada como Dennys Bezerra chamou atenção do Coaf. Isso porque o valor de R$ 63.627,00 foi repassado pelo homem em 14 transações no período de um mês.

A reportagem procurou o zelador, que declarou desconhecer os valores e as transações em contas dele. O morador do Gama disse, ainda, que iria procurar a Polícia Civil (PCDF) para registrar boletim de ocorrência.

Ainda segundo o relatório encaminhado à CPMI do INSS, após a entrada dos créditos, os valores foram imediatamente repassados para outras partes. Uma das saídas foi para uma segunda conta registrada com dados pessoais do zelador. Dessa vez, R$ 150,1 mil foram transferidos em 5 transações.

Uma segunda saída, no valor de R$ 93,2 mil, foi repassada em 6 transações para Dennys Bezerra; e uma terceira, de R$ 27,2 mil, enviada via Pix para uma enfermeira. Segundo o Coaf, o valor restante foi fracionado para “outras contrapartes” não mencionadas.

No relatório, o órgão disse que a conta do zelador já havia sido reportada outras duas vezes antes de constar no levantamento encaminhado a CPMI do INSS.

Para o Coaf, as movimentações na conta são “incompatíveis com o perfil do zelador e capacidade financeira”. Também há menções no relatório sobre “indícios de uso da conta em benefício de terceiros” e “repasses no mesmo dia de recebimento, dificultando o rastreamento”.

AAB

A Associação dos Aposentados do Brasil (AAB) é uma das várias organizações investigadas nos desvios de aposentadorias e pensões do INSS.

A instituição aparece em relatórios de pagamentos de pessoas ligadas a Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer), além de ambas terem sede no mesmo endereço. Números de telefone e e-mail também vinculam CNPJs de pessoas ligadas às duas associações.

Lucineide é uma das sócias da AAB. Ela é dona de uma igreja evangélica localizada no Recanto das Emas (DF). Estranhamente, um CNPJ pertencentes a Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Conafer, supostamente funciona no mesmo lugar em que está a instituição religiosa.

Metrópoles esteve no local e encontrou apenas a instituição religiosa, erguida entre um centro catequético e um terreno baldio. Apesar disso, segundo dados da Receita Federal, a loja de Samuel está ativa no espaço, configurando a suspeita de ser uma empresa fantasma.

Samuel, Lucineide e um homem chamado Cícero Marcelino, apontado como assessor do presidente da Conafer, criaram diversos CNPJs distintos, com capitais acima de R$ 100 mil, que supostamente funcionam na parte superior de um sobrado na região administrativa. Entre essas empresas estão as duas que efetuaram repasses para a conta do zelador.

Repasse a lobista

Em outro documento encaminhado a CPMI do INSS, uma movimentação envolvendo a mesma empresa de Lucineide e o lobista Danilo Berndt Trento também foi identificada.

Dessa vez, o relatório apontou uma transferência de R$ 100 mil feita pela Impacto Serviços de Apoio para a conta de Danilo no banco BK Bank- instituição investigada por supostamente lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Em 9 de outubro, Danilo Berndt Trento foi convocado pela CPMI do INSS para prestar depoimento. Segundo a Polícia Federal, o empresário teria atuado em conjunto como o ex-procurador-geral do INSS, Virgílio Antônio de Oliveira Filho, para desviar dinheiro das aposentadorias por meio de descontos irregulares nos benefícios.

Operação

A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram, em 13 de novembro, nova fase da Operação Sem Desconto, investigação que mira esquema nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões. A ação mobilizou equipes em 17 estados e no Distrito Federal.

Ao todo, foram cumpridos 63 mandados de busca e apreensão, 10 mandados de prisão preventiva e diversas medidas cautelares. Entre os presos estão:

  •  Alessandro Stefanutto – ex-presidente do INSS;
  • Antônio Carlos Antunes Camilo, conhecido como “Careca do INSS”;
  • Vinícius Ramos da Cruz – presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT);
  • Tiago Abraão Ferreira Lopes – diretor da Conafer e irmão do presidente da entidade, Carlos Lopes;
  • Cícero Marcelino de Souza Santos – empresário ligado à Conafer;
  • Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior – também integrante da Conafer.

Os alvos estão espalhados por Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe, Tocantins e Distrito Federal.

Como o esquema funcionava

Segundo as investigações, os suspeitos atuavam inserindo dados falsos em sistemas oficiais para incluir beneficiários em associações ou entidades fictícias. A partir disso, eram feitos descontos mensais indevidos diretamente nos pagamentos de aposentados e pensionistas, muitos deles sem qualquer conhecimento sobre as cobranças.

O grupo é investigado por formar organização criminosa voltada à obtenção de vantagens financeiras por meio de estelionato previdenciário, além de corrupção ativa e passiva para facilitar o acesso fraudulento aos sistemas do INSS.

Também há apurações sobre ocultação de patrimônio, supostamente utilizado para dificultar o rastreamento dos valores desviados.

O outro lado

Metrópoles tentou contatar os citados, mas não obteve retorno até a última atualização do texto. O espaço segue aberto para futuras manifestações.



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